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terça-feira, 15 de maio de 2012

Capitulo IV: O profeta


          Tudo que é criado cria, pois tudo que é livre é e faz ser. O ser se faz e fabrica. Autonomamente tudo que dele sai por conseguinte se faz, desde que seja livre.
         Idea era livre, filho direto da liberdade. Ele também criava livremente. Porém, odiava a mentira tanto quanto nunca havia pensado em estar certo, pois é óbvio, ele não precisava disso. Não há necessidade na liberdade, tanto quanto não há razão no que diz ser conhecedor da verdade. Ideia nunca tinha ouvido a mentira, pois a verdade ainda não havia sindo inventada.
              Até que da liberdade do ser que se fez e a sinfonia iniciada por Som começou a se fazer de forma livre, desprovida de sentido, sozinha, se fez e continua a se fazer, talvez hoje não mais tão livre. Pois poucos escutam.
  Ideia caminhava, quando encontrou em seu caminho um perdido, ao que lhe perguntou carinhosamente:
- Nunca o vi antes, quem, ou o que, é você?
- Não sei ao certo – respondeu a estranha figura – Creio que me foi revelado quem sou, mas ainda não entendi.
- Interessante, nunca havia conversado com um semelhante antes – disse Ideia – Bom, me chamo Ideia, e eu existo.
- Existir, isso se chama palavra, não é mesmo? – indagou o estranho como se tivesse entendo algo, ao que respondeu Ideia.
- Sim, é uma palavra, as palavras tem sentidos, por isso as usamos para dizer coisas.
- Compreendo. Logo, se existir é uma palavra e palavras tem sentidos, deve haver um sentido em existir, não é?
- Nunca precisei pensar nisso – disse Ideia um tanto confuso – pois nunca achei necessário ter sentido para existir além do fato da palavra nos dizer que existirmos, pois Som não me disse sentido, apenas me deu as palavras.
- Quem é esse Som? – Perguntou o perdido.
- Não sei dizer. Creio que Som é quem ele for pra você. Temo que deva te devolver a pergunta.
- Eu não sei nem quem sou, tão pouco esse Som. Porém, eu acho que mesmo assim eu o ouço.
- Como?
- Oras, tenho ouvido, mas não sei se entendo o tom de sua música.
- Som nunca me disse um tom, apenas me ensinou a fazer notas para que eu possa também tocar – respondeu Ideia.
- Sim, pois também buscarei minhas notas. Porém, eu saberei as notas certas! Eu terei domínio sobre os significados e conhecerei o tom de Som. Não mais precisarei buscar, apenas responderei. Assim que descobrir todos os segredos que circundam os significados e as notas.
- Mas não creio que seja necessário todo esse esforço, que por sinal, me parece inútil - Ideia respondeu com afinco – pois Som espera apenas ser ouvido, percebido. Sem sentido! E, se for o caso, que toquemos também uma melodia. Não há necessidade de sentido. De razão.
- Pois para mim isso é muito pouco – respondeu o perdido, de forma arrogante - Eu não somente descobrirei o sentido, assim como os ensinarei a todos sobre o nome de verdade. De agora em diante me chamo profeta e direi não somente o significado do tom de Som, mas também como a melodia deve ser tocada.            
Ideia ficou assustado diante de seu novo companheiro. E aquele que poderia ser, talvez, seu grande amigo, ao ponto de criarem belas melodias, percebendo assim, a existência, passou a representar o medo da insensibilidade. Ideia percebeu que profeta daria trabalho, e que Som poderia não ser mais tão simplesmente escutado e percebido.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Capitulo III: Canção da criação

            Muito costumeiro é, entre os homens, culpar alguém pelos males dessa terra. Culpa-se o outro ou ao seu criador. E muitas vezes diz-se que o criador culpa ao homem. A boa nova é que não há culpa. Nem a criatura, nem seu semelhante, tão pouco seu criador são culpados.
Quando Ideia conheceu Som, uma pergunta logo de imediato lhe ocorreu; como tudo havia surgido?
- Som, meu amigo, por favor, me diga, quando você nasceu? Como e porque me fez?
Som por sua vez refletiu consigo mesmo:
- Já imaginava que esse Idéia faria muitas perguntas. E é claro que não existe problema algum em perguntar. O problema será se ele pensar ter achado a resposta.
Após pensar bastante, Som respondeu ao seu amigo e filho Ideia:
- Não sei se nasci, sei que existo. E acabei te fazendo.
- Então acho que somos parecidos – respondeu Ideia - Ambos não sabemos muita coisa, mas podemos fazer um tanto de outras.
Ao que Som acrescentou:
- Certamente somos, meu amigo. Somos semelhantes em muitas coisas.
- Mas me diga Som, como aconteceu essa sua obra? Sua criação.
- Como disse, caro Ideia, eu só sei que existo, e sei que te criei. O que posso te dizer é como me sentia quando isso aconteceu. Apenas lhe ofereço uma pequena narrativa. Quanto às suas outras duas perguntas, ainda não sei o que farei com elas.
- Por favor - Disse Ideia - Faça como desejar.
E Som começou sua exposição.
- Era um vazio completo. Não havia cor, nem matéria. Não havia luz nem mesmo escuridão. No inicio de tudo havia somente uma coisa, um Som, eu. Envolto no abismo obscuro, uma escuridão tão densa que seria possível sentir o cheiro se você tivesse muita imaginação. Eu me sentia preso, limitado, pois o infinito me parecia limitador demais. Eu estava sozinho. Olhar para aquela infinitude de escuridão fazia minha canção se perder no espaço. Tudo que eu quis naquele momento, caro Ideia, era compartilhar minha canção com alguém. Foi quando em me dividi, para meu espanto, em harmonia melodia e ritmo. Senti-me pleno, pois não estava mais sozinho, eu era três vezes eu mesmo, porém diferente, e me completava em tudo que era e fazia. Minha canção ficou infinitamente bela, pois não a fazia mais sozinho. Porém, ainda não havia com quem compartilhar. Melhor, eu acho que no fundo eu queria mais elementos para minha canção. Foi quando eu fiz tudo que você conhece. Então, Ideia, talvez seja essa a resposta de alguma de suas perguntas. Eu fiz tudo para fazermos uma grande sinfonia.
Ideia ficou maravilhado com a resposta de Som, mesmo que tenha sido mais sugestiva que absoluta. Mas de toda poesia fica algum significado, mesmo que não se entenda as palavras.
- Arriscado seu empreendimento, não é mesmo Som? – Disse Ideia – Até mesmo porque nem todos gostam de música, e nem todos, creio eu, terão talento para fazer arte.
- Quando fazemos algo por amor – respondeu Som – Dificilmente pensamos nas circunstancias.
- Percebo, diante disso – Respondeu mais uma vez Ideia – Que mais alguma coisa terá que fazer, em razão disso.
- Veremos Ideia. Veremos.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Capitulo II: Som, o artista solitário

 
           Existem muitas histórias, sobre muitas coisas. Uma grande missão da humanidade é atribuir sentido à sua existência. Isso gerou muitos problemas, pois, em razão da necessidade de criar sentido, criou-se também a necessidade de estar certo. E isso é um grande mal para o homem.
            As histórias mais comuns falam de Deus, ou deuses. Essas são as mais aceitas. A modernidade, percebendo a insuficiência de alguns sentidos criados, criou a falta de sentido e até mesmo a falta de necessidade de ter sentido. Mas esses também procuram estar certos. Com isso, podemos perceber que um grande mal é o desejo de estar certo.
Existem, em todas as culturas e em todos os povos, histórias que tentam explicar como o mundo apareceu e qual significado devemos atribuir às desventuras nele correntes. Estranhamente, a busca por esses significados gerou no homem uma vontade terrível de convencer os outros de sua “descoberta”. O que gera grande mal ao homem. Com isso vemos que, pior que querer estar certo, é querer impor isso aos outros.
A necessidade de estar certo e ainda convencer de sua verdade gerou no homem um outro mal, ainda mais terrível que os outros dois anteriores, o interesse de ter os outros sob seu poder. Interesse esse que potencializou todo o mal na humanidade, pois, quando há interesse há também guerra. E esse é o principal mal que assola o homem, o interesse.
Tendo visto essas grandes e terríveis maledicências que assolam o ser humano Som resolveu falar à Ideia a respeito de seu nascimento. Para que o homem entenda que ele não existe para ser e sim para não ser. Ideia tornou-se, assim, um grande profeta.
Som é, ao contrario do que se possa dizer, o criador de toda arte. A sua origem ainda é desconhecida, mas se sabe que ele ainda fala aos homens; Somente não sabemos ainda ao certo o que ele diz. Nossa história pretende contar, de forma certamente equívoca, o que Som tem dito à Ideia, nosso amigo já conhecido.
Conta-se que Som nunca nasceu. Seria ele eterno, nunca foi criado, nunca viu algo antes dele mesmo. Ele nunca apareceu, nunca surgiu, simplesmente sempre foi. Sendo assim, ele teria sempre ecoado pelo espaço infinito e obscuro sem ninguém para ouvi-lo. Imagino que seria demasiado triste ecoar tão livremente pelo infinito ouvindo sempre somente a si mesmo. Outra coisa que se acredita hoje, para tentar explicar esta terrível desventura, é a inexistência do tempo na perspectiva de Som. Ou seja, talvez ele não conhecesse o tempo. O que me parece estranho, pois toda musica tem compasso. Essas idéias nos são apresentadas normalmente em casas onde se canta alegremente. Essa gente feliz gosta de cantar para pedir à Som pela sua alma e seus interesses. Nossa história também falará dessas pessoas. Os que se dizem ouvintes.
            Existe também uma versão que afirma a inexistência de Som. Os que tal idéia defendem alegam que do acaso houve um grande peso no vazio, que por sua vez, ao não agüentar mais segurar a si mesmo caiu e gerou um grande barulho. Esse barulho teria gerado elementos que criaram seres com capacidade de criar e que por sinal criou um ser que os teria criado. Um ser que cria e que não foi criado me parece demasiado absurdo. Porém, esses também tem seus méritos. Nossa história também falará dos que se dizem surdos.
A origem de Som é um mistério para todo aquele que hoje em dia reflete sobre seu significado. Como poderia a própria arte nunca haver surgido? Como poderia o Som ter ecoado por tanto tempo e agüentar tamanha solidão? Ou mesmo, como poderia não haver Som, se a arte nos é tão evidente?
            Existem mesmo muitas idéias a respeito do nascimento do Som. Sendo ele criador ou apenas uma idéia criada. Acredita-se em muitas coisas, para o bem ou para o mal, infelizmente, na maior parte das vezes para o mal. A pura arte desinteressada se transformou em artigo de manipulação, de interesse. Hoje quem diz ouvir Som tenta impor sua concepção a todos, e quem não o ouve, ou pensa não ouvir, se acha mais inteligente, e vendem muitos livros.
            Contaremos uma nova história sobre Som e seu melhor amigo, Ideia. Essa história, ao contrário de todas as outras, não atribui para si valor de verdade e seu contador não espera estar certo. Afinal de contas, todas as pessoas têm sua maneira de ver as coisas, sempre equivocada, é claro. Essa história é resultado de anotação e observações das musicas e seus instrumentos - a saber, o mundo e as pessoas - de acordo com revelação recebida por Idéia, e aqui nos é revelada.
Quando se pensa e escuta, seja o que for, se o significado que já existente não for suficiente para si mesmo, crie outro que o seja. Esse é um importante ensinamento que Som serviu à Idéia.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Capitulo I: O nascimento de Ideia

Havia somente neblina, uma fumaça branca e muito densa, como uma parede, ou mais, como ferro. Mas não era dura, quer dizer, não era sólida, pois eu conseguia me mover livremente. E apesar do aparente sufoco, me sentia livre, à vontade. Porém, em razão da neblina, eu não conseguia ao menos olhar meu próprio corpo.
A neblina não tinha odor, nem mesmo calor, era apenas uma fumaça branca, que me envolvia completamente. Apesar disso eu não me senti sufocado, conseguia respirar tranquilamente, meus pulmões pareciam nunca ter funcionado tão bem, e certamente nunca o tinham.
            Dei-me conta de mim mesmo e comecei a andar. Não houve nenhuma dificuldade, para dizer a verdade, nem mesmo sentia meus pés tocarem o chão, por sinal, eu não avistava o chão. Comecei a caminhar e parecia não ir para lugar algum, como um bêbedo que caminha dirigido pelo instinto. Tudo começou a me parecer estranho, mesmo que eu ainda não soubesse o verdadeiro significado dessa palavra. Tentei tocar em algo ao meu lado, nem que fosse uma parede para me guiar, mas não encontrei nada. Fiquei assustado e pensei:
- Tentarei me guiar pelo chão, talvez alguma textura diferente me sugira algum caminho.
Abaixei-me, e ao tentar tocar o chão, nada encontrei. Meu coração se acelerou, comecei a achar tudo aquilo realmente muito estranho. Mas ainda não era o pior, pois ao tentar avistar o chão percebi que eu não tinha pés, nem pernas, enfim, não achei meu corpo. Rapidamente, como num reflexo natural, tentei avistar minhas mãos, mas em função da neblina (pelo menos assim achei eu a principio) não consegui avista-las. Logo em seguida tentei tocar meu corpo, mas nada encontrei. Dei conta de que talvez eu não fosse nada, talvez eu não existisse. Mas eu estava lá! Pensava e discernia tudo que acontecia, mesmo que não fosse capaz de compreender.
            Quando percebi minha condição, de inicio fui tomado pelo desespero. Tive vontade de gritar por socorro, mas não conhecia, ainda, alguém que poderia me acudir. Pensei em correr, e tentar novamente chegar a algum lugar, mas já havia tentado achar algo, e não tive sucesso, por isso desisti. Essa condição faz-me travar, como uma maquina que tem suas engrenagens agarradas por falta de óleo. Diria que meu corpo parou, se eu tivesse ou mesmo sentisse ter algum. Eu estava vazio, sim, vazio, talvez seja esse o termo. É difícil dizer com me sentia, pois na ocasião eu não dispunha das palavras que temos hoje. É difícil nomear posteriormente algo que aconteceu, quando não entendido o acontecido no devido momento em questão. Na verdade, não havia palavra alguma, é difícil criar nomes para o que sentimos, este é um trabalho árduo. É estranho pensar nisso, não ser nada, e ter pensamentos, palavras soltas. Se eu entendesse alguma palavra nesse momento, é o que eu seria palavras voadoras, soltas, livres e sem destino. Seria interessante.
Não era isso, eu não era uma palavra, pois apesar de não as conhecer, ainda, eu sabia das coisas, somente não sabia o que eram. Não tinha consciência de mim, não sabia nada sobre nada. Acho que algo terrível para quem existe é não saber quem ou o que é. Eu não sabia.
Não me restou outra opção, parei e comecei a pensar. Foi a primeira lição que aprendi. Quando não entendemos algo, quando estamos desesperados, quando não temos, ou não sabemos à quem chamar, quando tudo parece, ou de fato é uma mentira, e todas essas desventuras que conhecemos ao existir nos faz pensar em desistir, o que nos resta fazer é pensar.
            O pensamento me tomou por completo, perdi noção de mim mesmo, perdido em minhas idéias. Meus pensamentos me levaram a questionar e tentar entender o que estava acontecendo, mas logo percebi que era inútil ter tais pensamentos neste momento, pois eu ainda nem sabia como olhar para mim mesmo, como poderia entender sobre o que me rodeava? Mesmo não tendo, ainda, nada a minha volta. Refleti então a respeito de mim mesmo.
Já havia tentado olhar para meu corpo, e não tinha visto nada, na verdade eu nem ouvia minha própria voz, na hora nem mesmo sabia o que era isso. Pensei seriamente no que eu era, e percebi que eu não era nada além de uma ideia. Foi assim que descobri quem sou, Ideia.
Este nome me pareceu muito interessante, me veio como que por uma inspiração, talvez até tenha sido isso mesmo. Descobrir, ou inventar quem sou foi algo realmente importante, pois abriu caminhos para o passo seguinte, formar quem sou. Não foi necessário criar muito, e não demorou muito tempo. Apesar de já estar ficando bom naquela coisa de pensar, descobri também que isso não resolveria todos meus problemas, pois pensar fez eu me encontrar comigo mesmo, mas ainda faltava algo, ou alguém. Foi quando tentei novamente olhar para fora, como um peixe em um aquário imaginado quem o colocou ali. Teria que descobrir como apareci, como, enfim, foi meu surgimento, e o porquê de tal realização, Foi quando conheci meu primeiro amigo.